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Nava retira do maço mais um cigarro e acende. Depois da primeira tragada, expande no rosto um sorriso maroto e, num estalar dos dedos, chama a atenção de um garçon, que se aproxima da sua mesa no salão do Café Estrela.
- Epitácio, tudo bem?
- Tudo. O de sempre?
- Não. Uma dose reforçada de Kummel.
- Animado, hein? – interfere Drummond, sentado ao lado.
- Epitácio, pode trazer – confirma Nava.
- Sim, senhor.
E virando-se para o amigo.
- Cadê o Agenor?
- Ficou de passar mais tarde. Pelas oito.
- Ótimo. Enquanto ele não vem lhe conto algo fabuloso que li hoje num pasquim nefelibático que recebi de Paris. Interessa.
- Sou todo ouvido – dispõe o poeta, curioso.
- Estampa uma notícia em que revela a história de um religioso no moldes de Don Juan.
- Ora Nava, se for lorota, não. Agradeço.
- Não é não. De morrer de rir.
- De quem você quer falar?
- De um abade que, como se fosse a manifestação terrestre do diabo, viveu fantásticas histórias de amor na França. Pervertido, o padreco se vestia de mulher para exercer suas conquistas.
Drummond admirado:
- Ah!... Deve ser mais um personagem imaginário de algum escritor francês de segunda classe.
- Não é não. De carne e osso. Há relatos preservados em “L’ Enfer de la Biliothèque Nationalle, Eros au Secret”. Já ouviu dizer?
- Nunca.
- Faz parte de uma coleção de livros imorais guardada, a sete chaves, na Biblioteca Nacional da França, desde o século XIX, por ordem de Napoleão Bonaparte.
- Nunca li nada a respeito.
- Abade francês tinha o desejo sexual como o fio condutor de sua vida. Seu negócio era disfarçar de uma senhora e se aproximar das mulheres da corte de Luís XIV. Seduzia as francesinhas com a promessa de compartilhar “segredinhos femininos” – elucida Nava.
- Meu Deus!
- Que cara é essa, Drummond?
- Difícil de acreditar.
- Detalhe: escolhia suas presas pelo aspecto da pele, pelo brilho do cabelo, pela idade e, consequentemente, pela classe social. Defendia que mulheres com essas características favoreciam seu trabalho.
- Sério?
- Sério.
- Ó mon Dieu! – exclama Drummond.
- Dizem que esse leal e devasso representante do “São Príapo” doutrinava suas discípulas no sentido em que sexo no casamento não deve ser enfadonho. Mas apimentado, surpreendente e cheio de fantasias.
- Caramba! Quando foi isso?
- Ele viveu de 1644 a 1724. Não é à toa que o mocinho recebeu o apelido de Kama Sutra católico.
- Curuis credo!
Nava em tom recitado:
- Por baixo do seu ar submisso e respeitoso, esconde-se uma dissimulação de Jesuíta. Ninguém melhor do que ele para se aproximar sorrateiramente e dar uma mordida no pé..., como bem diz Tchekhov num dos seus contos ao descrever um cão sardento.
- Ah, essa é boa!
- Pois é. O sagrado, além desse e de outros casos, vem conquistando cadeira cativa no mundo da concupiscência sexual.
- Abomino. Abomino.
- Paris é linda e fascinante. Coloca em evidência os bastidores da Igreja Católica e sua luta secular contra o demônio que não poupa nem mesmo os tementes a Deus.
- É. Provavelmente foi expulso da congregação por insubordinação mental e sexual. A verdade liberta, a mentira escraviza, não é assim. Sem dúvida, ele curte as fontes luminosas do inferno de Dante – assevera Drummond.
- Outro objeto que desperta alvoroço no mundo cristão.
Pedro bebe toma o resto da bebida. E pede uma dose chorada de conhaque francês. Carlos, indiferente, retira do bolso o relógio e confere as horas. Logo diz ao garçom que apetecia tomar Guaraná Champagne Antárctica.
* FBN© 2011 – O ABADE TRAVESTIDO/Welington Almeida Pinto/Categoria: conto.
Coletânea on-line: BEAGÁ ASSIM COMO ERA – www.memorialiteráriabh.blogspot.com

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